{"id":264,"date":"2022-02-25T13:11:00","date_gmt":"2022-02-25T13:11:00","guid":{"rendered":"https:\/\/josiasmoraes.com\/blog\/?p=264"},"modified":"2022-12-22T11:59:36","modified_gmt":"2022-12-22T11:59:36","slug":"pesquisa-od-possibilitando-novos-futuros-ou-conservando-caminhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/pesquisa-od-possibilitando-novos-futuros-ou-conservando-caminhos\/","title":{"rendered":"Pesquisa OD: possibilitando novos futuros ou conservando caminhos?"},"content":{"rendered":"\n<p>Dentre as diversas ferramentas que subsidiam o planejamento da mobilidade urbana, as Pesquisas Origem-Destino (OD) ganharam protagonismo como uma das fontes de informa\u00e7\u00e3o mais importantes \u2013 sen\u00e3o a maior delas \u2013 para a compreens\u00e3o das din\u00e2micas de deslocamentos da popula\u00e7\u00e3o. Em 1967, em conson\u00e2ncia com a repercuss\u00e3o do planejamento de previs\u00e3o de demanda futura de transportes, era divulgada a primeira edi\u00e7\u00e3o da Pesquisa OD da capital paulista, com resultados que originariam o primeiro projeto da rede b\u00e1sica do Metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo. Desde ent\u00e3o, a cada dez anos, a Pesquisa OD da cia do Metr\u00f4 \u00e9 realizada nesta regi\u00e3o com o objetivo de colher insumos, a partir da observa\u00e7\u00e3o e caracteriza\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de deslocamentos cotidianos das pessoas, para proje\u00e7\u00e3o de viagens futuras, elabora\u00e7\u00e3o de planos e projetos. Al\u00e9m de S\u00e3o Paulo, in\u00fameros outros munic\u00edpios e regi\u00f5es metropolitanas apostam nesse instrumento, que se consagrou como basilar para o planejamento e otimiza\u00e7\u00e3o dos sistemas de transporte.<\/p>\n\n\n\n<p>Basicamente, esse robusto levantamento de dados tenta descrever uma realidade vigente, que possa ser analisada para identificar gargalos e captar virtualidades em curso desse complexo sistema. De modo usual, fazem parte desse \u201cpacote\u201d \u2013 ou amostra, como preferem os t\u00e9cnicos \u2013 caracter\u00edsticas socioecon\u00f4micas das pessoas de uma fam\u00edlia, endere\u00e7os de trabalho, escola e resid\u00eancia, como tamb\u00e9m informa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de viagens realizadas, tais quais o(s) meio(s) de transporte(s) utilizado(s), por qual motivo realizou aquela viagem, hor\u00e1rios e tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, de forma bastante gen\u00e9rica, podemos deduzir que o que informa por onde uma linha de \u00f4nibus, de metr\u00f4 ou de trem ir\u00e1 passar\/surgir de um determinado contexto urbano decorre do presente. T\u00e1, mas o que tem de errado \u2013 ou para ser mais ponderada \u2013 de problem\u00e1tico nisso? \u00c9 que, no limite, para que os softwares possam processar essa virtual realidade e auxiliar na tarefa de produzir cen\u00e1rios futuros, \u00e9 preciso simplificar ao m\u00e1ximo a complexidade existente, ou seja, jogar fora in\u00fameros detalhes que a comp\u00f5e. E assim, somos seduzidos pela promessa de precis\u00e3o e objetividade que esses dados todos carregam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o d\u00e1 para abarcar e traduzir toda a realidade em n\u00fameros. Isto \u00e9, uma linha precisa ser tra\u00e7ada sobre o que ser\u00e1 ou n\u00e3o considerado. Mas n\u00e3o podemos esquecer que isso sugere que em toda pesquisa, seja ela da ordem que for, decis\u00f5es s\u00e3o tomadas: escolhas e omiss\u00f5es s\u00e3o feitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao explorar a hist\u00f3ria dos levantamentos demogr\u00e1ficos brasileiros, Jane Souto de Oliveira conseguiu perceber que a representa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o que a partir deles se constr\u00f3i, est\u00e1 longe de ser uma constante (um dado). \u00c9 algo que se modifica ao longo do tempo, que pode ser observado atrav\u00e9s da inclus\u00e3o ou exclus\u00e3o de perguntas, a maneira de formul\u00e1-las e o significado que lhes \u00e9 atribu\u00eddo. Al\u00e9m de ser bastante revelador das preocupa\u00e7\u00f5es e dilemas que marcam o pensamento social de uma \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltemos \u00e0 OD! Inspirada no trabalho de Oliveira, busquei observar aspectos relevantes sob a perspectiva da justi\u00e7a social na metodologia das \u00faltimas quatro edi\u00e7\u00f5es da Pesquisa OD da Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo. Com a ajuda da pesquisadora Haydee Svab, do t\u00e9cnico da SPTrans, T\u00e1cito Silveira e da professora e especialista em transportes, Andreina Nigriello, pude constatar que h\u00e1 pouca flexibilidade na inclus\u00e3o de novas perguntas ou op\u00e7\u00f5es de respostas na constru\u00e7\u00e3o do question\u00e1rio de entrevista que faz a coleta dos dados, especialmente aquelas relacionadas \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o de certos grupos sociais, demarcando suas diferen\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, \u00e9 uma metodologia que segue sendo muito parecida desde a d\u00e9cada de 70 e expressa a resist\u00eancia do corpo t\u00e9cnico em acolher novas agendas e estrat\u00e9gias metodol\u00f3gicas para o planejamento de transporte, como a inclus\u00e3o das perspectivas de g\u00eanero e da diversidade, por exemplo. Demonstra uma conduta que pode resultar do pioneirismo da cia do Metr\u00f4 em instituir esse tipo de pesquisa como baliza do planejamento de transportes em \u00e2mbito nacional, mas que, paralelamente carrega um comportamento cristalizado que segue influenciando o setor.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo desse artigo n\u00e3o consiste em desqualificar a Pesquisa OD. \u00c9 evidente que ela tem um papel fundamental na compreens\u00e3o da mobilidade urbana. Mas \u00e9 importante refletir criticamente sobre dois apontamentos: 1) metodologias que operam a partir da previs\u00e3o com base no padr\u00e3o atual podem aprofundar desigualdades j\u00e1 existentes naquela realidade mensurada \u00ad\u2013 que convenhamos, s\u00e3o muitas e de diversas ordens nas cidades brasileiras \u00ad\u2013 e; 2) os dados n\u00e3o s\u00e3o neutros e conservam as vis\u00f5es de mundo daqueles que os estruturam. E aqui eu pe\u00e7o licen\u00e7a para citar duas passagens do texto de Hanna Fry, \u201cWhat Data Can\u2019t Do\u201d, que discute o poder e o perigo dos dados, publicado na revista norte-americana, New Yorker. A autora afirma que as nossas perspectivas s\u00e3o codificadas no que consideramos que vale a pena observar. Como resultado, as omiss\u00f5es podem surgir at\u00e9 mesmo nos exerc\u00edcios de coleta de dados mais bem-intencionados. Ela ainda acrescenta que talvez precisemos reavaliar nosso relacionamento com previs\u00f5es &#8211; aceitar que h\u00e1 limites inevit\u00e1veis sobre o que os n\u00fameros podem oferecer e parar de esperar que os modelos matem\u00e1ticos por conta pr\u00f3pria nos levem por momentos de incerteza.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"732\" src=\"https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/371644_93e1b30a01f8484cada27a1b89967f26mv2-1024x732.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-265\" srcset=\"https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/371644_93e1b30a01f8484cada27a1b89967f26mv2-1024x732.webp 1024w, https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/371644_93e1b30a01f8484cada27a1b89967f26mv2-300x214.webp 300w, https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/371644_93e1b30a01f8484cada27a1b89967f26mv2-768x549.webp 768w, https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/371644_93e1b30a01f8484cada27a1b89967f26mv2.webp 1154w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><br>Na imagem acima, observa-se que mudan\u00e7a na premissa da classifica\u00e7\u00e3o dos motivos das viagens no transporte p\u00fablico, em estudo realizado na Espanha, gera uma importante altera\u00e7\u00e3o quantitativa daqueles motivos que s\u00e3o tradicionalmente considerados como mais frequentes.\u00a0 Fonte: S\u00e1nchez de Madariaga, I. (2013). <a href=\"http:\/\/genderedinnovations.stanford.edu\/methods\/language.html\">http:\/\/genderedinnovations.stanford.edu\/methods\/language.html<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Assim, \u00e9 importante ter ci\u00eancia acerca das lacunas que tais formatos conservam para que estes possam ser aprimorados e at\u00e9 mesmo complementados por outras estrat\u00e9gias. E, se h\u00e1, de fato, uma intencionalidade positiva, enquanto o planejamento de transporte seguir negligenciando aspectos como cor\/ra\u00e7a, etnia, g\u00eanero \u2013 para citar alguns \u2013 e insistindo que existe um usu\u00e1rio neutro e padr\u00e3o dos seus sistemas, deveria ao menos fortalecer os mecanismos de efetiva\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o ativa e empoderamento da popula\u00e7\u00e3o nos processos de planejamento da mobilidade, como forma de rompimento com a manuten\u00e7\u00e3o de iniquidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fraser, N. (2002). A justi\u00e7a social na globaliza\u00e7\u00e3o: redistribui\u00e7\u00e3o, reconhecimento e participa\u00e7\u00e3o. Revista Cr\u00edtica de Ci\u00eancias Sociais, (63), 7-20. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.4000\/rccs.1250\">https:\/\/doi.org\/10.4000\/rccs.1250<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fry, H. (2021). <a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2021\/03\/29\/what-data-cant-do\">What a Data Can\u2019t Do.<\/a> New Yorker Magazine, March, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Hildebrand, M. (2020). O planejamento da mobilidade na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo: progress\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es \u00e0 luz da (in)justi\u00e7a social. (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado em Planejamento Urbano e Regional, n\u00e3o publicado). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hildebrand,&nbsp; M. (2021).&nbsp; Mobilidade&nbsp; urbana \u00e0&nbsp; luz&nbsp; da justi\u00e7a&nbsp; social:&nbsp; convite a&nbsp; uma&nbsp; perspectiva alternativa.&nbsp; &nbsp; Revista INVI, 36 (102), 20-53. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.4067\/S0718-83582021000200020\">https:\/\/doi.org\/10.4067\/S0718-83582021000200020<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Lucas, K. (2012). Transport and social exclusion: where are we now? Transport Policy, 20, 105-113. <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.tranpol.2012.01.013\">http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.tranpol.2012.01.013<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Martens, K. (2006). Basing transport planning in social justice. Berkley Planning Journal, 19(1), 1-17. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.5070\/%20BP319111486\">https:\/\/doi.org\/10.5070\/ BP319111486<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>OLIVEIRA, J. (2003). \u201cBrasil mostra a tua cara\u201d: imagens da popula\u00e7\u00e3o brasileira nos censos demogr\u00e1ficos de 1872 a 2000. Texto para discuss\u00e3o. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Ci\u00eancias Estat\u00edsticas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dentre as diversas ferramentas que subsidiam o planejamento da mobilidade urbana, as Pesquisas Origem-Destino (OD) ganharam protagonismo como uma das fontes de informa\u00e7\u00e3o mais importantes \u2013 sen\u00e3o a maior delas \u2013 para a compreens\u00e3o das din\u00e2micas de deslocamentos da popula\u00e7\u00e3o. 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