{"id":282,"date":"2022-06-05T13:27:00","date_gmt":"2022-06-05T13:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/josiasmoraes.com\/blog\/?p=282"},"modified":"2022-12-22T11:58:22","modified_gmt":"2022-12-22T11:58:22","slug":"cidades-feministas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/cidades-feministas\/","title":{"rendered":"Cidades feministas"},"content":{"rendered":"\n<p>O espa\u00e7o urbano n\u00e3o \u00e9 neutro e a percep\u00e7\u00e3o da cidade depende de local que o indiv\u00edduo ocupa na sociedade. A exist\u00eancia e a circula\u00e7\u00e3o pela cidade n\u00e3o \u00e9 experienciada da mesma maneira por um idoso, uma crian\u00e7a ou uma pessoa com defici\u00eancia f\u00edsica, por exemplo. Do mesmo modo, homens e mulheres experienciam a cidade de formas diferentes. Mesmo no contexto atual de forte participa\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho e nos espa\u00e7os urbanos, elas ainda experimentam a cidade atrav\u00e9s de um conjunto de barreiras f\u00edsicas, sociais, econ\u00f4micas e simb\u00f3licas que moldam suas vidas diariamente. Muitas dessas barreiras passam despercebidas pelos homens, que em seu conjunto de experi\u00eancias raramente lidam com as mesmas barreiras que as mulheres nas cidades. A identidade de g\u00eanero molda a maneira como as pessoas circulam pela cidade, quais modos de transporte escolhem utilizar e os caminhos que escolhem fazer ao voltar para casa. Para as mulheres, isso pode significar a ado\u00e7\u00e3o de cuidado extras como forma de driblar os riscos.&nbsp; A amea\u00e7a constante de viol\u00eancia misturada com o ass\u00e9dio di\u00e1rio limita suas escolhas, poder e oportunidades econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelo trabalho de cuidado n\u00e3o remunerado. Em geral, al\u00e9m de todo o trabalho dom\u00e9stico di\u00e1rio, que inclui cozinhar, limpar, lavar, tamb\u00e9m fica a cargo delas o cuidado de crian\u00e7as, idosos, pessoas doentes ou com alguma defici\u00eancia. Essa carga de trabalho complexifica os deslocamentos das mulheres, refletindo as diversas tarefas do trabalho remunerado e n\u00e3o remunerado que elas t\u00eam de cumprir. Al\u00e9m do caminho para o trabalho, a jornada de uma mulher pode incluir o percurso realizado para levar uma crian\u00e7a \u00e0 creche ou \u00e0 escola, a ida a um posto de sa\u00fade para acompanhar um familiar doente, retirar medicamentos, ou uma parada extra no mercado ap\u00f3s o trabalho para comprar os ingredientes para o jantar e um pacote de fraldas \u2013 para citar alguns exemplos.&nbsp; Se cada um desses pontos que ela precisa acessar ao longo do dia n\u00e3o est\u00e3o localizados de forma pr\u00f3xima, essa mulher ser\u00e1 for\u00e7ada a acessar o sistema de transporte v\u00e1rias vezes e&nbsp; pagar por essas viagens e pelas das crian\u00e7as. Se ela mora na periferia ou tem que se deslocar para cidades pr\u00f3ximas em busca de trabalho ou servi\u00e7os, poder\u00e1 ter de pagar tamb\u00e9m para ter acesso a diferentes sistemas de transporte.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"888\" height=\"602\" src=\"https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/371644_6aa0f263eae5484dbb495228fc99ce55mv2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-284\" srcset=\"https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/371644_6aa0f263eae5484dbb495228fc99ce55mv2.png 888w, https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/371644_6aa0f263eae5484dbb495228fc99ce55mv2-300x203.png 300w, https:\/\/poloplanejamento.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/371644_6aa0f263eae5484dbb495228fc99ce55mv2-768x521.png 768w\" sizes=\"(max-width: 888px) 100vw, 888px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A mobilidade do cuidado. FOnte: ITDP. BOletim #8: A ilus\u00e3o da Mobilidade Padr\u00e3o.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Para se ter uma ideia, segundo a \u201cPesquisa de H\u00e1bitos e Inten\u00e7\u00f5es de Uso no P\u00f3s-Pandemia\u201d, realizado pela Assessoria de Pesquisa da Diretoria de Planejamento de Transporte da SPTrans entre setembro e outubro de (2021), 57% dos passageiros do sistema de transporte municipal s\u00e3o mulheres jovens, negras, com ensino m\u00e9dio completo, e com renda m\u00e9dia familiar de R$ 2,4 mil, (classe C). A pesquisa tamb\u00e9m observou que a grande maioria dos usu\u00e1rios do transporte p\u00fablico n\u00e3o possui carro ou motocicleta, mas os que possuem em sua maioria s\u00e3o homens. As mulheres est\u00e3o, portanto, mais propensas a depender do transporte p\u00fablico e a terem que se deslocar mais a p\u00e9, mesmo que esse sistema de transporte n\u00e3o contemple totalmente suas necessidades ou possa oferecer riscos, como ass\u00e9dio e toques indesejados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que haja um esfor\u00e7o crescente para a diversifica\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os de poder, a maioria dos tomadores de decis\u00e3o ainda s\u00e3o homens e significa que as principais escolhas urbanas ainda s\u00e3o tomadas sem levar em considera\u00e7\u00e3o como essas decis\u00f5es afetar\u00e3o as mulheres. Ao assumir a experi\u00eancia masculina como o \u201cpadr\u00e3o\u201d, essas decis\u00f5es tendem a refor\u00e7ar os pap\u00e9is tradicionais de g\u00eanero e a divis\u00e3o sexual do trabalho. Esse fen\u00f4meno foi intitulado pela ge\u00f3grafa canadense, Leslie Kern (2019), como a \u201ccidade dos homens\u201d. Segundo a autora, \u201c[&#8230;] qualquer assentamento \u00e9 uma inscri\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o das rela\u00e7\u00f5es sociais na sociedade que a construiu. Nossas cidades s\u00e3o o patriarcado escrito em pedra, tijolo, vidro e concreto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez constru\u00eddas, as cidades continuam a influenciar as escolhas dos indiv\u00edduos e a moldar o leque de possibilidades que cada grupo tem acesso. Nesse sentido, a forma como a cidade foi constitu\u00edda pode limitar possibilidades e normalizar algumas configura\u00e7\u00f5es e situa\u00e7\u00f5es de desigualdade. Logo, os espa\u00e7os f\u00edsicos possuem um papel importante quando queremos pensar em mudan\u00e7as sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho para a constru\u00e7\u00e3o de uma cidade feminista, que deixe de reproduzir desigualdades de g\u00eanero, \u00e9 incluir no planejamento urbano conversas sobre g\u00eanero, feminismo e vida na cidade, para assim encontrar formas de agir que as tornem espa\u00e7os mais seguros e inclusivos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bibliografia:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>KERN, L. Feminist &nbsp; City: a field guide. [S.l.]: \u200eBetween the Lines , 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>SPTRANS. Pesquisa da &nbsp; SPTrans aponta que mulheres s\u00e3o maioria dos passageiros de \u00f4nibus e que fazem &nbsp; menos teletrabalho. Secretaria Municipal de Transporte e Mobilidade Urbana, &nbsp; 2021. Disponivel em: &nbsp; &lt;https:\/\/www.sptrans.com.br\/noticias\/pesquisa-da-sptrans-aponta-que-mulheres-sao-maioria-dos-passageiros-de-onibus-e-que-fazem-menos-teletrabalho\/&gt;. &nbsp; Acesso em: 31 maio 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O espa\u00e7o urbano n\u00e3o \u00e9 neutro e a percep\u00e7\u00e3o da cidade depende de local que o indiv\u00edduo ocupa na sociedade. A exist\u00eancia e a circula\u00e7\u00e3o pela cidade n\u00e3o \u00e9 experienciada da mesma maneira por um idoso, uma crian\u00e7a ou uma pessoa com defici\u00eancia f\u00edsica, por exemplo. 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